O silencio
Já enfrentei muitas lutas na vida — e nem gostaria de passar novamente por algumas delas. Hoje, ao olhar para trás, só consigo dizer: graças a Deus, o vendaval passou.
Mas, entre todas as batalhas que vivi, talvez a mais difícil, a mais silenciosa e a mais intrigante seja esta: quando Deus se cala.
O silêncio de Deus nos assusta. Ele mexe com as estruturas da alma. Provoca insegurança, medo e, muitas vezes, desespero. Porque a pergunta ecoa dentro de nós: por que Deus parece ficar em silêncio justamente quando mais O buscamos?
Já ouviu alguém fazer essa pergunta? Provavelmente sim. E talvez, em algum momento, você mesmo já a tenha feito.
Sentir-se sozinho no meio da oração é como um frio que atravessa o coração. É como a mãe que ora, jejua e clama pelo filho, sem ver respostas. É como o profeta que já viu o fogo descer do céu, mas agora se encontra em uma caverna, esperando novamente um sinal de Deus — e tudo o que encontra é silêncio.
Primeiro vem o vento forte, que derruba. Depois o terremoto, que abala. Em seguida o fogo, que impressiona. Mas Deus não está em nenhum desses.
E então vem algo quase imperceptível: uma brisa suave. E é ali, no quase nada, no sutil, no silêncio, que a presença se revela.
O silêncio de Deus também esteve na cruz.
Jesus, em dor extrema, com o corpo ferido, respirando com dificuldade, chama pelo Pai: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” Evangelho de Mateus
Não há resposta imediata. Não há intervenção visível. Não há livramento naquele momento. Há silêncio.
Mas aquele silêncio não era ausência de amor. Era propósito. Era redenção em curso. Era o céu trabalhando de forma invisível para que a humanidade tivesse acesso à salvação.
Deus não deixou de amar. Ele não perdeu o poder. Ele não se afastou por indiferença. Ele sustentou o silêncio para que o plano se cumprisse até o fim.
Às vezes, o silêncio de Deus não é rejeição — é direção. Não é abandono — é processo. Não é ausência — é profundidade.
Ele continua olhando, cuidando, sustentando cada detalhe, mesmo quando não percebemos. E há um tempo em que tudo se alinha, em que o silêncio dá lugar à resposta, e aquilo que parecia demora revela propósito.
Enquanto isso, somos chamados a confiar, mesmo sem entender. A permanecer, mesmo sem ouvir. A crer, mesmo sem ver.
Porque o silêncio também faz parte da voz de Deus.
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