Menino trapilho

Andando estava eu para mais um dia de serviço. Muitas pessoas, muitos carros, lojas se abrindo. Um dia nublado e chuvoso. As calçadas estavam molhadas e, nos cantos, havia barro. O verde estava mais escuro, devido à chuva que havia regado todas as árvores e flores logo pela manhã.

Mas algo que me impressionou foi quando me deparei com uns pés sujos de lama, e ouvi um barulho de latinhas dentro de uma sacola — era como se fossem sinos que indicavam que algo estava para acontecer. Logo fui olhando e vi que, além dos pés sujos de barro, havia uma calça totalmente suja e rasgada. A blusa era um pedaço de pano que servia apenas para proteger o corpo, que estava exposto ao clima frio e molhado.

No seu olhar havia muita tristeza, mas no fundo era possível enxergar uma gota de esperança. A esperança de que aquelas pequenas latas pudessem lhe trazer um pouco de lucro para forrar o estômago com comida.

Eu queria ter dinheiro suficiente para abençoar aquele sorriso singelo e tímido, mas não tinha, e também não tinha possibilidade de voltar para casa naquele momento. Queria eu poder encontrar novamente aqueles bracinhos finos, de um coração regado por fé.

O menino trapilho. Sim, ele era o menino trapilho, que passava a noite recolhendo latinhas jogadas na beira dos bancos das praças para trocar por dinheiro — dinheiro que lhe daria aquilo que ele havia passado a noite sonhando: “um prato de comida”.

Ele deu o primeiro passo de fé com a atitude de um menino humilde, esperando algo em troca.

Fé é pisar no primeiro degrau, mesmo que você não veja a escada inteira.

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