A princesa da torre

Ela passou dias, meses e anos esperando uma resposta da vida.

Mas a vida não lhe trouxe as respostas que ela queria — trouxe outra coisa. Trouxe força. Uma força silenciosa, construída aos poucos, na solidão, na espera e no hábito de olhar para o céu como quem procura sentido nas nuvens.

Trancada naquela torre, ela observava o mundo lá fora através das cores do entardecer. Acompanhava o movimento das nuvens como quem tenta decifrar mensagens invisíveis. Falava consigo mesma — não por escolha, mas por necessidade — como se fosse sua única companhia possível e, ao mesmo tempo, sua única forma de não desaparecer por dentro.

Em algum lugar profundo, ela sabia que um dia sairia dali. Não sabia como. Não sabia quando. Mas havia uma certeza discreta que a mantinha viva: algo mudaria.

Cresceu ouvindo histórias de um cavaleiro em um cavalo branco, alguém que viria para resgatá-la e transformar tudo. Por muito tempo, acreditou. Esperou. Desejou. Imaginou.

Mas os anos têm o costume de desgastar até as esperanças mais bonitas. E ela se cansou.
Cansou de esperar a vida acontecer.
Cansou de esperar ser salva.
Cansou de esperar a felicidade bater à porta.

Foi então que, num instante quase imperceptível de coragem, tomou uma decisão.

Se não havia portas abertas… ela saltaria.

Saltaria da torre.

Porque o que poderia ser pior do que permanecer em um lugar onde sua alma já não cabia?

E quando saltou, não foi apenas o corpo que caiu — foi uma vida inteira de expectativas, medos e esperas que se desfizeram no ar.

Na queda, ela sentiu tudo.
Sentiu a dor do que viveu.
Sentiu o peso do que suportou.
Mas também sentiu algo que há muito não conhecia: liberdade.

O vento atravessava seus cabelos como se, enfim, a vida a tocasse de verdade. Pela primeira vez, ela não apenas sobrevivia — ela sentia.

Talvez tenha sido essa a única forma que encontrou de recomeçar.

Ela nunca soube exatamente o que veio depois. Mas tentou. Amou o que pôde, como pôde, com tudo o que tinha. E seguiu.

Porque, no fundo, Cecília não nasceu para ser apenas uma espera dentro de uma torre.

Nasceu para viver — ainda que isso significasse aprender a voar no meio da queda.

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