Queimando outra vez
Março de 2020.
Oficialmente, Honduras começava a registrar os primeiros casos de COVID-19. As fronteiras foram fechadas, aeroportos silenciados, cidades paralisadas pelo medo. Embaixadas corriam contra o tempo tentando repatriar viajantes e migrantes para seus países de origem. O caos começava a se instalar em um país já marcado pela dor, onde grande parte da população vivia em extrema pobreza.
As forças armadas tomaram as ruas. O direito de ir e vir desapareceu da noite para o dia. O medo caminhava pelas avenidas vazias, enquanto o silêncio pesado da incerteza cobria tudo. E eu… estava sozinha.
Naquele momento, senti meu coração ser tomado por uma mistura sufocante de medo, aflição e insegurança. Pensei inúmeras vezes em voltar para perto da minha família, para o lugar onde eu me sentiria protegida. Eu havia chegado recentemente ao país. Não conhecia as ruas, não conhecia as pessoas, não conhecia a cultura profundamente. Tudo era novo, estranho e assustador.
Somente eu e Deus sabemos o quanto foi difícil atravessar aquele período longe de tudo aquilo que poderia me oferecer suporte físico, emocional e espiritual. Havia dias em que o peso da solidão parecia insuportável. Dias em que o silêncio do quarto gritava mais alto do que qualquer notícia na televisão.
Mas foi justamente nesse processo que Deus começou a me moldar. Dei um nome àquela fase da minha vida: Peniel. Porque foi ali, em meio ao medo, à escassez e à dor, que comecei a ter encontros profundos com Deus. Um dia contarei essa história com mais detalhes.
Mesmo diante de todas as dificuldades, eu fiz a minha escolha: permanecer.
E permanecer exigiu coragem. Exigiu fé. Exigiu paciência. Ah… quanta paciência. Porque permanecer não era apenas ficar em um país desconhecido; era confiar que Deus estava conduzindo cada passo meu, mesmo quando eu não conseguia entender o caminho.
Enquanto o mundo enfrentava a pandemia, Honduras ainda sofreu o impacto devastador de dois furacões que destruíram parte do território catracho. Ruas foram inundadas, famílias perderam tudo, e o cenário que já era difícil tornou-se ainda mais doloroso.
Era impossível não se quebrar diante do que meus olhos viam. Crianças dormindo em caixas de papelão. Idosos pedindo comida nas ruas. Famílias inteiras tentando sobreviver em meio à lama, à fome e ao abandono. O sofrimento humano ganhou rosto diante de mim.
E foi nesse percurso que Deus começou a revelar o verdadeiro motivo da minha permanência ali.
Meu coração doía profundamente porque eu sabia que não conseguiríamos alcançar todas aquelas pessoas. Era impossível resolver toda aquela realidade. Mas, ainda assim, algo queimava dentro de mim dizendo: “Faça o que puder.”
Então compreendi que Deus não nos chama para mudar o mundo inteiro de uma só vez; Ele nos chama para sermos resposta na vida daqueles que coloca em nosso caminho.
E naquele lugar de dor, escassez e caos, eu entendi algo que jamais esqueci:
Deus opera em nós tanto o querer quanto o realizar.
Foi Ele quem colocou compaixão no meu coração. Foi Ele quem me impulsionou a agir mesmo com medo, mesmo limitada, mesmo sem recursos suficientes. Porque quando Deus nos dá uma missão, Ele também nos sustenta para cumpri-la.
E foi assim, em meio às lágrimas, ao medo e à vulnerabilidade, que comecei a descobrir que às vezes os cenários mais difíceis da nossa vida se tornam exatamente o lugar onde encontramos propósito.
Em meio ao caos e às feridas abertas pela pandemia, uma porta começou a se abrir diante de nós. O governo de Honduras, por meio do projeto No Me Detengo, iniciou ações voltadas ao desenvolvimento de projetos sociais que alcançassem pessoas em situação de vulnerabilidade.
Foi então que, em meio a tantas incertezas, recebi um convite que mudaria profundamente a minha caminhada naquele país. O diretor da ONG Árbol de Justicia, Noe Banegas, me chamou para pensarmos juntos em algo que pudesse levar esperança àquelas pessoas que haviam sido esquecidas em meio à crise.
Lembro-me de sentir meu coração queimando enquanto conversávamos. Porque, no fundo, eu sabia que Deus estava começando a responder muitas das perguntas que eu havia feito em silêncio durante os dias difíceis. Talvez eu ainda não entendesse completamente o propósito de estar ali, tão longe de casa, mas começava a perceber que nenhuma dor, nenhuma espera e nenhum processo haviam sido em vão.
Diante de nós existia uma realidade dura: famílias sem alimento, crianças sem perspectivas, mães tentando sobreviver em meio ao desespero, jovens sem oportunidades e comunidades inteiras esmagadas pela pobreza extrema. Era impossível olhar para tudo aquilo e permanecer indiferente.
Então começamos a sonhar.
Sonhar com um projeto que não entregasse apenas ajuda material, mas também dignidade, acolhimento e esperança. Queríamos alcançar pessoas que, muitas vezes, já não acreditavam mais no amanhã. Queríamos mostrar que ainda existia amor em meio ao caos, cuidado em meio à escassez e humanidade em meio à dor.
E foi nesse processo que compreendi algo muito profundo: Deus, muitas vezes, nos leva para lugares que quebram o nosso coração, porque é justamente ali que Ele deseja nos usar.
O medo ainda existia. As limitações também. Mas havia algo maior crescendo dentro de mim: propósito. Porque quando entendemos que fomos chamados para servir, nossas próprias dores começam a ganhar um novo significado.
Foi em uma segunda-feira à noite que tudo começou a ganhar forma.
Depois de longas conversas sobre a realidade histórica e social de Honduras — sobre a pobreza, o desemprego crescente, a desigualdade e a luta diária de tantas famílias para sobreviver — sentimos que Deus começava a direcionar nossos passos de maneira muito clara.
Em meio às ideias, dúvidas e orações, nasceu algo simples, mas cheio de propósito: a criação de carrinhos móveis para venda de produtos diversos nas ruas de Tegucigalpa. O que, à primeira vista, parecia apenas uma alternativa de geração de renda, logo se transformou em uma verdadeira porta de esperança para muitas famílias hondurenhas.
Porque não se tratava apenas de vender produtos. Tratava-se de devolver dignidade. De oferecer oportunidade. De lembrar pessoas feridas pela crise de que ainda era possível recomeçar.
Cada carrinho representava mais do que trabalho; representava autonomia para pais e mães de família, alimento dentro de casa, esperança reacendendo em meio ao caos que a pandemia havia deixado. Enquanto muitos enxergavam apenas números e estatísticas, Deus nos fazia enxergar rostos, histórias e vidas que precisavam ser alcançadas.
E foi lindo perceber como aquilo que nasceu em uma conversa simples, em uma noite comum, começou a tomar proporções muito maiores do que imaginávamos.
O projeto foi aprovado e financiado pelo governo, e aquilo que antes era apenas uma ideia movida por fé começou a se expandir para diferentes regiões do país. O que nasceu em Tegucigalpa ultrapassou fronteiras locais e alcançou outras zonas de Honduras, levando oportunidade para pessoas que já haviam perdido quase tudo.
Naquele momento, compreendi mais uma vez que quando Deus está no centro de um propósito, Ele abre caminhos onde antes só existiam impossibilidades.
Porque Deus não desperdiça dor.
Não desperdiça processos.
Não desperdiça pessoas dispostas a dizer “sim”.
E tudo aquilo que um dia me fez questionar o motivo de permanecer em Honduras começou, finalmente, a fazer sentido.
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